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Alfredo Tomé de Britto
Cadeira: 2
Patrono: Alfredo Tomé de Britto

Nascido no dia 21 de dezembro de 1863, na ilha dos Frades, Baía de Todos os Santos, Alfredo Thomé de Britto foi filho de Joanna Maria da Salvação Vianna e Domingos José de Britto e irmão de Luiza Fortunato de Britto. Conforme relatos, Alfredo Britto provavelmente nasceu na freguesia de Sant’Anna, numa fazenda denominada Loreto e teve o nome lavrado num assentamento de batismo em 02 de março de 1880.

Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), em 1880.  Ainda estudante publicou trabalhos científicos, como “Ação terapêutica do ferro e seus compostos”, na Revista de Beneficência Acadêmica, em 1884, e foi aprovado em concurso para Interno de Clínica Cirúrgica. Formando-se no ano de 1885, apresentou sua tese inaugural em 30 de setembro, denominada “Cremação e inumação perante a higiene”. Nesta tese é possível notar o seu poder de criticidade ao discorrer sobre a cremação para além do ato em si, redigindo que “practicada, como era antigamente e ainda se mantém na Índia, a cremação não satisfaria as necessidades de hygiene nem as exigências do sentimento e da moral” (BRITTO, 1885, p. 17). 

Sua relação precoce com a pesquisa científica, demonstra apenas o princípio de um empenho que resultaria em tantas outras publicações no campo médico, com temas em propedêutica, histologia, cardiologia, hematologia, radiologia, cirurgia, infectologia, história da medicina, dentre outros. Destaque-se: “Aneurisma da aorta na Bahia”, “Contribuição para o estudo da “gripe influenza”. Com um protagonismo nacional, através do trabalho sobre os Raios X (“Os raios X em medicina e cirurgia. Seo valor clínico atual”), ele dava informações sobre a nova descoberta de Roentgen e seu uso na medicina. 

Em 1888, por concurso, tornou-se Adjunto da 1ª cadeira de Clínica Médica. Lente Substituto da 7ª seção, em 1891, tornou-se Catedrático de Clínica Propedêutica em 1893. Nesse ano, como tese para o concurso, Dr. Alfredo Britto escreveu o “Ensaio crítico sobre os principais processos de cardiometria clínica”. Foi responsável também por escrever a Memória História relativa à Faculdade de Medicina da Bahia em 1901. É considerado um dos mais dinâmicos diretores da Faculdade de Medicina da Bahia, cuja gestão data de 21 de agosto de 1901 a 04 de junho de 1908. Neste período, deu início a publicação de revista importante para a Faculdade de Medicina da Bahia, denominada de Revista dos Cursos da Faculdade de Medicina da Bahia. Sua gestão firmou o primeiro convênio entre o Estado da Bahia e o Governo Republicano, precursor do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.

Outros feitos institucionais estão relacionados à construção de pavilhões para serviços de atendimentos clínicos, como o de Clínica Obstétrica da Maternidade Climério de Oliveira (MCO), o pavilhão no Asilo São João de Deus (que, posteriormente, levou seu nome) e a inauguração do Instituto Clínico da faculdade (sede de laboratório), para fins de trabalhos, pesquisas e exames, influenciado por artigo do psiquiatra baiano Juliano Moreira.

Na sua gestão como diretor da Fameb, ocorreu o famoso incêndio no prédio da Faculdade no Terreiro de Jesus. No dia 2 de março de 1905, enquanto ocorriam os tradicionais festejos carnavalescos em Salvador, diversos espaços da instituição, incluindo a importante biblioteca e os modernos equipamentos em laboratórios, como o de psicologia experimental, eram consumidos pelo fogo, acontecimento este que influenciaria diretamente na saúde do professor, ao desprender rapidamente grandes esforços para reconstrução do que fora destruído (BRITTO, 2002). Sua atuação foi decisiva, tendo buscado apoio financeiro para a reconstrução dos prédios requerida ao baiano José Joaquim Seabra, ministro do Interior que se mostrou resistente a princípio, mas atendeu ao pedido do professor e das diversas doações feitas para a nova biblioteca da instituição. O trabalho de reconstrução foi demorado e Alfredo Britto não experimentou do sentimento de inaugurar a sua admirável obra, a qual poder ser observada nos traços arquitetônicos da faculdade localizada no Terreiro de Jesus. Em 6 de junho de 1908, sofrendo ataques de adversários como os Professores Luiz Anselmo da Fonseca e Aurélio Vianna, ele foi exonerado do cargo de diretor, por motivos considerados não justificáveis,  e provavelmente resultante de manobras políticas.

O Dr. Alfredo Britto foi casado com D. Julia de Almeida Couto Britto, tendo como fruto desse matrimônio quatro filhos, o primogênito Alfredo Couto Britto (1892-1942), médico e catedrático de Neurologia, seguido de Julieta, Álvaro e Armando (GOMES et al., 2015). Foi nessa viagem que, vítima do sarampo, faleceu sua esposa, com apenas 36 anos, tendo seu corpo sido embalsamado ainda no navio e lançado as águas do oceano atlântico (BRITTO, 2002). 

O brilhante, respeitado e infelizmente perseguido como dirigente pelos políticos da época, Dr. Alfredo Thomé de Britto se encantou em 13 de maio de 1909, aos 43 anos de idade e 24 anos de carreira médica, na ilha de Itaparica, na casa de saúde Dr. Augusto Villaça, onde se encontrava em tratamento de uma infecção paratífica, mediada e complicada por beribéri edematoso.

Seu maior legado deve-se a seu espírito inovador, brilhantismo científico e a busca pelo benefício dos pacientes que levaram o Dr. Alfredo Britto ao uso da radioscopia pela primeira vez no Brasil no ano de 1897. Após realizar uma viagem ao Velho Mundo (Bordeaux), cuja maior expressão relacionada à radioscopia e a radiografia foi o fato do Dr. Alfredo Britto trazer da viagem um aparelho de raios-X a ser utilizado na Clínica Propedêutica, de onde era catedrático, no Hospital Santa Izabel. Já em 1899, o Consultório Clínico e Gabinete de eletricidade médica e raios-X de Alfredo Britto e Vieira Lima já diagnosticava com as técnicas inovadoras trazidas pelo médico e mestre e que teriam impactos profundos na Propedêutica da época e a posteriori.

O soldado Manoel Bertolino dos Santos, ferido em Canudos no mesmo ano, teve a graça de ser o primeiro paciente no Brasil a ter seu diagnóstico, bem como as dimensões e a posição da bala alojada em sua costela, identificada pelo Dr. Alfredo Britto. Isto, aliado ao fato de que havia apenas dois anos de descoberta dos Raios-X pelo físico alemão Wilhelm Conrad Roentgen (1895), o que evidencia a primazia do médico, professor e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia.
O Dr. Antônio Nogueira Britto (2002) citando a obra “Reminiscência da Guerra de Canudos” e a memória histórica de Eduardo de Sá Oliveira, discorre que Alfredo Britto foi considerado como o “primeiro a empregar, no Brasil, a radioscopia para o diagnostico em cirurgia. E, no mundo inteiro, foi o primeiro a empregá-la na cirurgia de guerra”, quando prestou cuidados ao soldado Manoel Bertolino machucado nesta guerra em 1897 (p. 345). Alfredo Britto ao atender os feridos da guerra revelou-se como pioneiro em visualizar “as dimensões e posição de uma bala localizada no primeiro espaço intercostal esquerdo”. De acordo com a Dra. Cristina Fortuna, das 57 vítimas que foram submetidas a exames radiológicos, 49 delas obtiveram resultados satisfatórios, enquanto o restante não reagiu de modo desejável. 

Outro destaque como médico foi o de diagnosticar pela imagem, em 1898, um caso de apendicite num acadêmico do 2º ano de medicina que foi exitosamente operado pelo Dr. Pacheco Mendes (GOMES et al., 2015). Durante sua carreira foi presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia, Benemérito da Liga Baiana contra a Tuberculose, tendo sido 2º Secretário, Vice-Presidente e Presidente da Liga, tendo construído em sua gestão o edifício do Dispensário e “efetuou muitos outros importantes melhoramentos para a boa marcha da campanha antituberculosa” (OLIVEIRA, 1992). Presidiu o 6º Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, assumiu o cargo de Notável Professor da Cadeira de Higiene, é patrono da cadeira nº 32 do Instituto Baiano de História da Medicina e padrinho das cadeiras de número 38 na Academia de Letras da Bahia e a de número 02 na Academia de Medicina da Bahia.

Em vida, seu nome foi lembrado em uma placa encontrada na Maternidade Climério de Andrade, reconhecendo o seu empenho na construção dos pavilhões de serviço de Clínica Obstétrica. Sua excelência enquanto discente e gestor da FMB serviu e continua constituindo-se como um exemplo de dedicação. Desde 1922, a Fameb oferece a premiação Medalha Professor Alfredo Thomé de Britto aos formando que se destaca na pesquisa e na produção acadêmica. É possível ainda visualizar na rua ao lado da Fameb que liga o Terreiro de Jesus ao Pelourinho uma placa em bronze com a seguinte afirmação “A Sociedade Acadêmica Alfredo Britto, com autorização official, avisa ao público que esta rua tem agora o nome de seu ínclito patrono”. É a Rua Alfredo Britto.

Para os autores, não é por acaso, que as marcas do neoclassicismo e os peculiares traços arquitetônicos que caracteriza o Anfiteatro Alfredo Britto, construído na primeira escola mater da Medicina brasileira, leva seu nome como uma grande homenagem desejada por discentes, mestres e médicos formados nessa instituição, diante da sua inesquecível contribuição. Seu nome foi escolhido para ser Patrono na Cadeira nº 2 da Academia de Medicina da Bahia.

Leituras recomendadas:
BRITTO, Antônio Carlos N. A medicina baiana nas brumas do passado. Salvador: Contexto e Arte Editorial, p. 323- 330, 343-354, 2002.
GOMES, Phillipe Paulo A.M et al. “Alfredo Thomé de Britto”. In: JACOBINA, Ronaldo R; MATUTINO, Adriana R.B; CORREIA, Fernanda R (Org.). Faculdade de Medicina da Bahia: Mais de 200 anos de pioneirismo. Salvador: EDUFBA, p. 45-54, 2015.
OLIVEIRA, Eduardo de S. Memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia, concernente ao ano de 1942. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1992.
Figura 1 - Anfiteatro Professor Alfredo Brito, Faculdade de Medicina da Bahia, Universidade Federal da Bahia, Terreiro de Jesus, Salvador (BA)
   
Fonte: Acervo da FMB.UFBA.
Figura 2 - Exame radioscópico do soldado Manoel Bertolino dos Santos, ferido em Canudos em 1897, feito pelo Dr. Alfredo Britto.( Pintura do médico Trípoli Francisco Brito Gaudenzi, Memorial de Canudos. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1993).

 
ARTHUS TORRES DE SOUZA 
Bacharel em Saúde (UFBA), Graduando em Medicina (FMB) na UFBA  

CATHARINE CONCEIÇÃO MARTINEZ GARCIA
 Bacharela em Saúde (UFBA), Graduanda em Medicina (FMB) na UFBA 

RONALDO RIBEIRO JACOBINA.
Professor do Dept.º de Medicina Prevetiva e Social-Fameb- Ufba

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