Academia de Medicina da Bahia Scientia Nobilitat
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Gonçalo Moniz Sodré de Aragão
Cadeira: 24
Patrono: Gonçalo Moniz Sodré de Aragão
Patrono

Dr. Gonçalo Moniz dá nome a uma das mais importantes bibliotecas de história da Medicina do país (Bibliotheca Gonçalo Moniz-UFBA), bem como a um importante instituto de pesquisa em nossa capital, pertencente à Fundação Oswaldo Cruz.
     O soteropolitano Gonçalo Moniz Sodré de Aragão nasceu no Solar Saldanha da Gama, n.5, Pelourinho, em Salvador, no dia 28 de janeiro de 1870. Filho de Maria Leopoldina e do Dr. Egas Carlos Moniz Sodré de Aragão, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1865 e Lente de Patologia Geral de 1875 a 1893. (COSTA; BRZIL, 2009)
     Quanto aos estudos preparatórios de Gonçalo Moniz, antes da Faculdade, não foram encontrados registros. Entrou no curso médico aos 17 anos, em 1887 e se formou em 1892, aos 22 anos. Foi interno da 1ª Cadeira de Clínica Médica (1891-1893). Em 1891, ainda estudante, publicou Etiologia e Pathogenia da suppuração na Revista Acadêmica da Bahia. Foi um aluno exemplar, tendo obtido as melhores notas em todas as disciplinas do currículo médico, teve, como prêmio, uma viagem de estudos à Europa. A viagem não se realizou por omissão das autoridades responsáveis. Sua tese inaugural foi Algumas noções sobre a etio-patogenia e o diagnóstico das lesões valvulares do coração esquerdo (1893). (OLIVEIRA, 1992)
     As atividades médicas, sobretudo no início da carreira, foram direcionadas a lecionar medicina, sendo Assistente interino de Clínica Medica já em 1894. Entrou por concurso para o quadro de docentes da FAMEB, como Professor Substituto, com 25 anos, tendo apresentado o trabalho Da Imunidade Mórbida, um estudo geral (1895), na cadeira de Patologia Geral. Nela, com a Reforma do ensino médico, foi nomeado em 1915 Professor Catedrático. Entretanto, até a sua aposentadoria, em 1925, lecionou também em diversas disciplinas como Clínica Médica, Fisiologia, Anatomia, Fisiologia Patológica, Histologia, Bacteriologia. Além do ensino, o Dr. Gonçalo Moniz sempre se dedicou a uma extensa produção científica, publicando inúmeros trabalhos voltados à saúde da população baiana, principalmente quanto a tuberculose e a peste bubônica.
      Casou com Maria da Purificação da França Pinto de Oliveira Garcez, com quem teve dois filhos, Luiz Moniz Sodré e Alice Moniz Sodré.
     Em 1897, em conjunto com Manoel José de Araújo, dirigiu uma enfermaria militar denominada “Claude Bernard” (homenagem ao médico e fisiologista francês), montada na Faculdade de Medicina da Bahia para o atendimento de feridos da Guerra de Canudos (1896-1897). Dos 29 combatentes que tratou 23 saíram de sua enfermaria completamente restabelecidos, cinco foram transferidos a outra enfermaria, três estavam quase restabelecidos e dois sofriam de moléstias incuráveis na época: tuberculose e cardioesclerose. (PINHEIRO, 2009)
     Gonçalo Moniz assumiu posições importantes no campo da Saúde Pública. Em 1899, foi então nomeado pelo Governo Estadual para montar e dirigir o Gabinete de Análise e Pesquisas Bacteriológicas da Bahia, voltado para a verificação de obtidos e controle das doenças infecto-contagiosas de caráter epidêmico.
     Na direção desse gabinete, pôde fazer diversas publicações de estudos e análises sobre a peste bubônica, tais como: o “Relatório sobre as pesquisas bacteriológicas em um caso suspeito de peste”, e o artigo Considerações sobre a peste bubônica (1899), publicado na Gazeta Médica da Bahia. Esse Gabinete foi chamado depois de Instituto Oswaldo Cruz e, mais tarde, em homenagem póstuma, de Fundação Gonçalo Moniz. 
     Esta experiência o levou ao Instituto Soroterápico Federal (Instituto de Manguinhos, atual FIOCRUZ), em 1901, a fim de estudar a preparação da vacina antipestosa e do soro Yersin.  Em 1904 foi nomeado pelo governo do Estado diretor do Hospital de Isolamento (atual Hospital Couto Maia) e depois ao cargo de Diretor Geral de Saúde Pública do Estado (1914-1921) e de Secretário do Interior, Justiça e Instrução Pública (1916-1921), no período da epidemia da gripe espanhola (1918-1920). Foi neste período que, por questões políticas, negou a evidente irrupção da epidemia de gripe espanhola na capital baiana o que foi criticado, principalmente, pela imprensa baiana oposicionista. (SOUZA, 2005)
           Depois do incêndio de 1905 na Faculdade, que destruiu a sua biblioteca, foi formada uma comissão para organizar a nova biblioteca. Nela, destacou-se a atuação de Gonçalo Moniz, pois em 1909, a biblioteca já restaurada tinha um acervo de mais de 12 mil livros, com obras raras que se tornou destaque no país e merece até hoje ser visitada. Depois do seu encantamento, em 1939, a Bibliotheca Gonçalo Moniz tem o nome de um homem que teve “uma vida toda dedicada aos livros” (Jornal A Tarde). Desse modo, para a biblioteca foi sim, uma justa homenagem.
      Foi redator/colaborador da Gazeta Médica da Bahia, tendo sido o Redator principal no período de 1906-1914. A Gazeta era considerada um dos mais importantes jornais médicos brasileiros da segunda metade do século XIX a 1920, divulgador da produção científica relacionada à patologia tropical no Brasil. (JACOBINA; GELMAN, 2008)
          O Relatório publicado em 1921 por Gonçalo Moniz, no tempo em que ocupava a chefia da Secretaria do Interior da Bahia, relaciona alguns obstáculos: a infra-estrutura de esgoto e abastecimento de água continuava a ser totalmente insatisfatória; os brejos e pântanos ainda constituíam perfeitos terrenos de procriação para mosquitos e parasitas; bairros muito antigos, muitos deles datando do período colonial, estavam em flagrante violação dos modernos princípios de higiene urbana. (ANDRADE, 2007)
Escreveu a Memória Histórica da Faculdade de Medicina da Bahia relativa ao ano de 1924 (1924), instituídas pela Reforma de 1854, escritas anualmente com o objetivo de narrar os acontecimentos do ano e informar sobre o desenvolvimento das doutrinas nos cursos públicos e particulares, inclusive a precariedade do ensino médico na Bahia foi bastante frisada nessas memórias, inclusive queixas da falta de apoio e de verbas necessárias por parte do governo desde sua primeira edição. Estas memórias históricas foram escritas anualmente (1854-1915), havendo uma interrupção (1916-1923), quando Gonçalo Moniz publica a dele.
     Intelectual que mantinha contato constante com a psicologia, o direito, a astronomia, as ciências matemáticas, a economia e a literatura, Gonçalo Moniz ultrapassou as fronteiras das ciências biológicas e da medicina. Em 7 de março de 1917, junto com outros intelectuais baianos, fundou a Academia de Letras da Bahia, com o objetivo de cultivar a língua e a literatura nacionais, preservar a memória cultural baiana, amparar e estimular as manifestações, inclusive nas artes e ciências.
     Culto, com formação ampliada, Gonçalo Moniz foi o segundo presidente da Academia de Letras da Bahia, assumindo logo após o falecimento do professor Ernesto Carneiro Ribeiro, em 1920. A associação com as Letras era profícua, a ponto de sua biblioteca particular possuir mais de 16 mil volumes, uma das mais importantes do estado.
     Em 07 de setembro de 1915, foi inaugurado o Instituto Bacteriológico, Antirrábico e Vacinogênico, no bairro do Canela, sob a direção de Gonçalo Moniz. Posteriormente, o nome foi alterado para Instituto Oswaldo Cruz e, na perspectiva de evitar sobreposição em relação ao Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, modificou-se para Instituto de Saúde Pública. É deste instituto que surgiu a Fundação Gonçalo Moniz, criada pela Lei nº 262, de 03 de abril de 1950, que realizava pesquisas científicas e mantinha o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen). O Instituto Gonçalo Moniz - Fiocruz Bahia, passou a funcionar nas instalações de pesquisas desta Fundação, a partir de um convênio firmado em 30 de março de 1979, assinado pelo Governo do Estado da Bahia, a Faculdade de Medicina da Bahia - UFBA e a Fundação Oswaldo Cruz. (INSTITUTO..., 2016) A homenagem representou uma demonstração do respeito que o pesquisador, mesmo encantado, ainda tem na Bahia e no Brasil.
Gonçalo Moniz se “encantou” em 1º de junho de 1939, aos 69 anos, mas deixou contribuições em vários campos sociais. Em sessão solene da Congregação, realizada no dia 19 do mesmo mês, foi aprovado um voto de profundo pesar pela sua morte, ocasião em que o Prof. Magalhães Neto afirmou: “Gonçalo Moniz não foi somente um erudito, porém uma expressão raríssima de cultura. Conhecedor de todas as ciências médicas, dotado de uma ilustração humanística das maiores de sua época, foi um sábio, tomando-se o termo na plenitude do seu significado”.
     Disse o Prof. Otávio Torres, em seu Esboço histórico dos acontecimentos mais importantes da vida da Faculdade de Medicina da Bahia: “Gonçalo Moniz era um dos espíritos mais brilhantes da Congregação, e considerado um sábio pelos seus pares, pois discutia, de improviso, qualquer assunto e sua opinião era sempre abraçada pela maioria dos colegas”.
    Dr. Gonçalo Moniz é o Patrono da Cadeira n. 24 da Academia de Medicina da Bahia.

Referências
ANDRADE, Sônia. G. Evolução dos Estudos Experimentais na Bahia. Gazeta Médica da Bahia v. 77, n. 2, jul-dez, p. 245-254, 2007.

INSTITUTO Gonçalo Moniz - IGM. FIOCRUZ Bahia. Histórico. Salvador, 2016. Disponível em: https://www.bahia.fiocruz.br/cpqgm/historico/. Acesso em 25/04/2019.

COSTA, Maria de Fátima D.; BRAZIL; Tânia K. Gonçalo Moniz Sodré de Aragão. In: BRAZIL; Tânia K. (org.). Projeto Heróis da Saúde na Bahia. Salvador, 2009. Disponível em: <http://www.bahiana.edu.br/herois/heroi.aspx?id=MA==>. Acesso em: 25/04/2019.


JACOBINA, Ronaldo; GELMAN, Ester. A., Juliano Moreira e a Gazeta Medica da Bahia. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, n.4, out.- dez, p.1077-1097, 2008.

OLIVEIRA, Eduardo de S. Memória histórica da Faculdade de Medicina da Bahia, concernente ao ano de 1942. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, p. 347-349, 1992.

PINHEIRO, Alexander Magnus S. Uma experiência do front: a Guerra de Canudos e a Faculdade de Medicina da Bahia. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2009.

SOUZA, Christiane Maria Cruz de. A gripe espanhola em Salvador, 1918: cidade de becos e cortiços. História Ciências Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702005000100005&lng=en&nrm=iso, acessado em 27/08/2010


Hederson Gabriel Santos de Jesus 
Bacharelado Interdisciplinar de Saúde-UFBA. Acadêmico de Medicina-FMB-UFBA

Ronaldo Ribeiro Jacobina.
Titular da Cadeira nº 29 da Academia de Medicina da Bahia.
 Professor Titular de Medicina Preventiva e Social-FMB-UFBA.

 

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