Academia de Medicina da Bahia Scientia Nobilitat

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Cesar Augusto de Araújo Neto
Cesar Augusto de Araújo Neto
Titular - Cadeira 45
21/09/2026
12:00
Discurso do Presidente da Academia Cesar Augusto de Araújo Neto em homenagem ao Professor Roberto Campos

Ilustríssimos Membros que compõem a mesa dessa solenidade, que a todos saúdo ao dirigir-me ao Professor Doutor João Carlos Salles Pires da Silva – Magnífico Reitor da Universidade Federal da Bahia, Autoridades presentes, Nobres acadêmicas e acadêmicos, Digníssima família Figueira Santos, Senhoras e senhores.

É com profunda reverência, mas também com a alegria própria daqueles que contemplam a grandeza humana, que a Academia de Medicina da Bahia ocupa esta tribuna na sessão de abertura do centenário de nascimento do inesquecível Professor Doutor Roberto Figueira Santos.

Neste dia a Academia de Medicina da Bahia se engrandece, pois estamos homenageando um espírito de autêntica formação humanística, de intensa atividade intelectual, de rara sensibilidade que moldurou suas ações profissionais com o mais puro lavor da arte médica. 

Falar do Professor Roberto Santos, a qualquer aspecto, é tarefa do maior rigor, pela responsabilidade que encerra. Valor humano de excepcional quilate – vida plena, fecunda e cintilante, na semeadura da verdade e da beleza, figura das mais representativas da medicina e do coração da Bahia.

Nasceu em Salvador, em 15 de setembro de 1926.

Filho de Edgard Rego Santos, médico, professor e um dos grandes construtores da Universidade Federal da Bahia, e de Carmen Figueira Santos, cresceu em um ambiente no qual o estudo, a cultura, a ciência e o serviço público não eram apenas valores proclamados — eram valores vividos.

Mas Roberto Santos não se limitou a herdar uma grande tradição.

Ele a ampliou.    

E o fez com personalidade própria, inteligência, disciplina, espírito científico e extraordinária capacidade de compreender o seu tempo.

Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1949, partiu ainda jovem para os Estados Unidos, onde aperfeiçoou sua formação nas universidades de Cornell, Michigan e Harvard, desenvolvendo atividades clínicas e de pesquisa. Mais tarde, esteve em Cambridge, aprofundando sua formação em Medicina Experimental.

Ao retornar à Bahia, poderia ter escolhido os caminhos mais confortáveis e individualmente mais vantajosos.

Escolheu, porém, a Universidade.
Escolheu o Hospital das Clínicas. Escolheu a pesquisa.
Escolheu o ensino.
Escolheu formar pessoas.

Essa escolha talvez seja uma das mais belas chaves para compreender Roberto Santos.

Porque nele havia uma compreensão muito clara de que o conhecimento somente alcança sua verdadeira grandeza quando é colocado a serviço da sociedade.

Professor, pesquisador, médico e educador, construiu uma carreira universitária de extraordinária dimensão.

Aos trinta anos, já era professor catedrático de Clínica Médica.

E, em 1967, assumiria a Reitoria da Universidade Federal da Bahia.

Naquele momento, a Universidade brasileira atravessava profundas transformações.

Roberto Santos não foi um espectador dessas mudanças.

Foi um de seus protagonistas.

À frente da UFBA, participou ativamente de sua reestruturação e impulsionou a expansão das ciências, com a implantação dos Institutos de Matemática, Física e Química e o início dos Institutos de Biologia e Geociências.

Sua visão de Universidade era ampla.

Não enxergava uma instituição fechada sobre si mesma.

Enxergava uma Universidade aberta ao conhecimento, à ciência, à inovação e às necessidades do país.

E essa concepção acompanharia toda a sua trajetória.

Presidiu o Conselho Federal de Educação.
Participou de organismos nacionais e internacionais relacionados ao ensino médico.
Presidiu a Associação Brasileira de Educação Médica.
Publicou trabalhos sobre educação médica, ensino e pesquisa.

E, ao longo de sua vida produziu mais de quarenta trabalhos, entre eles Educação Médica nos Trópicos, O Ensino Médico no Brasil e A Pesquisa Médica no Brasil. O escritor – letras médicas e belas letras, boas letras sempre – tudo meditava, propriedade, elevação, e, sobretudo, donaire de forma – ouro de lei, sempre, em todos os setores de sua festejada obra de polígrafo.

Não por acaso, sua atuação alcançaria também a administração pública.

Foi Governador da Bahia, entre 1975 e 1979.
Foi Ministro da Saúde, entre 1986 e 1987.
Foi deputado federal.

Para Roberto Santos, a Medicina conduzia à saúde pública.

A Universidade conduzia à educação.
A ciência conduzia ao desenvolvimento.
E o exercício da vida pública deveria conduzir ao bem coletivo.

Essa coerência talvez seja uma das características mais marcantes de sua trajetória.

Como cientista e professor, sua dedicação à clínica médica e à gastroenterologia deixou marcas indeléveis. Formou gerações de médicos não apenas na técnica apurada, mas na humanização do cuidado, na ética irrestrita e no amor ao paciente. O chefe de escola – sabendo atrair vocações, que amanhava com o espírito e o coração, como jardineiro de plantas raras.

Sua vocação para servir ao bem comum transbordou os muros da academia. Como Governador do Estado da Bahia e, mais tarde, como Ministro da Saúde, Roberto Santos levou a probidade, o espírito conciliador e a firmeza republicana para o centro das decisões do país. Em tempos conturbados ou em momentos de paz, sua bússola moral jamais vacilou. O político e o parlamentar, fiel a seu evangeliário de virtudes. Modelo a ser contemplado em qualquer época. Amigo que lembra aquele do Eclesiastes, quando nos adverte que “bem-aventurado o que encontrou amigo verdadeiro”.

Para nós, membros dos sodalícios intelectuais da nossa terra, sua presença sempre foi motivo de incontestável orgulho. Poucos homens na história baiana conseguiram reunir em si a estatura para ocupar, com pleno brilho e contribuição ativa, a Academia de Medicina, a Academia de Letras, a Academia de Educação e a Academia de Ciências da Bahia. Roberto Santos não era apenas um acadêmico; era a própria síntese do humanismo renascentista no século XX e XXI.

Na Academia de Medicina da Bahia, sua cadeira nunca foi apenas um assento de sabedoria, mas uma fonte inesgotável de inspiração. Suas intervenções combinavam 

a sobriedade dos grandes mestres com a generosidade dos verdadeiros sábios.

O imortal acadêmico Roberto Figueira Santos ocupou a cadeira de Nº 09 da Academia de Medicina da Bahia sob a patronímica de Antônio Luís Cavalcanti de Albuquerque de Barros Barreto, que tem como atual ocupante a acadêmica Maria Betania Pereira Toralles. 

Senhoras e Senhores,

Celebrar o centenário de Roberto Figueira Santos não é um exercício de mera nostalgia. É, acima de tudo, um imperativo do presente e um compromisso com o futuro. Em tempos em que o conhecimento, a ética e o espírito público tantas vezes enfrentam sobressaltos, a memória do Professor Roberto Santos emerge como um farol e um guia moral.

A Academia de Medicina da Bahia se curva diante da sua memória e reafirma aqui o compromisso de manter vivos os seus ideais: a defesa intransigente da ciência, a humanização da medicina e a dedicação irrestrita ao progresso da nossa gente.

Professor Roberto Santos passou a vida sugerindo ideais – na grandeza da sua obra e primor da sua vida, naquele concerto de mil talentos e formosuras que lhe compunham, como compõem, a personalidade modelar.  

Roberto Santos viveu neste mundo para servir, para construir, edificar e agregar, convertendo suas energias na bandeira de uma luta. 

Médico atilado, professor erudito, gestor público provado, humanista consagrado, atravessou a existência sempre cumprindo o sagrado dever de semear o bem, nunca jamais negando admiráveis devotamentos ao nobre, ao justo, ao grande, ao generoso.

Assim foi o Professor Roberto Santos, ensolarando a alma de tanta gente, e a realizar, agora que morto, a aspiração suprema de Raul de Leoni,

Pudesse eu ter a tua mesma história!
Mudos os cantos onde os sonhos louvo,
Deixar os versos que escrevi, sem gloria,
Dentro do coração de minha terra,
Entre o culto e a saudade de meu Povo!

Professor Roberto ficou, no culto e na saudade de seu povo...

Muito obrigado.

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