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Excelentíssimo Prof. Dr. Cesar Augusto de Araújo Neto, Presidente da Academia de Medicina da Bahia, Excelentíssimas Confreiras, Excelentíssimos Confrades, Autoridades presentes, Senhoras e Senhores,
Recebo, nesta noite, com emoção profunda, com sincera gratidão e com vivo senso de responsabilidade, a honra de ingressar na Academia de Medicina da Bahia, ocupando a Cadeira nº 2, sob o patronato de Alfredo Thomé de Britto. Faço-o consciente de que, em instituições como esta, o gesto da posse ultrapassa a esfera individual e assume um significado ao mesmo tempo histórico, moral e espiritual. Não se trata apenas da admissão de um novo membro. Trata-se da incorporação a uma tradição, da aceitação de um legado e, sobretudo, do ingresso numa comunidade de memória.
Ao longo do tempo, habituamo-nos a chamar de imortais aqueles que são acolhidos nas academias. Mas, se nos detivermos um instante sobre essa palavra, veremos que ela encerra uma das mais belas e exigentes ideias da vida intelectual. Nenhum de nós é imortal em sentido biológico. Somos todos criaturas da finitude. E, no entanto, a civilização humana descobriu uma outra forma de permanência: a permanência do nome associado à obra, do exemplo que se transmite, do magistério que fecunda gerações e da memória que não se dissolve com a morte.
É por isso que a palavra imortalidade, quando usada no ambiente acadêmico, não designa uma fuga da condição humana, mas uma forma superior de fidelidade a ela. Imortal é aquele cuja passagem pela vida não se encerra em si mesma; aquele cuja existência continua a produzir sentido depois de cessada; aquele que permanece nos frutos de sua inteligência, na força formadora do seu exemplo e nos bens duradouros que legou à sua comunidade.
Foi pensando nisso que me pareceu inevitável recordar, nesta cerimônia, duas passagens fundamentais de Homero. A primeira está na Ilíada, na voz de Aquiles, que compreende com lucidez trágica que diante dele se abrem dois destinos. Na tradução clássica de Odorico Mendes, Aquiles diz:
“Não regresso, mas compro glória eterna;
Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
Terei velhice longa e fim tardio.”
Eis, em poucas linhas, uma das formulações mais altas da fama imperecível. Aquiles sabe que pode escolher entre a longa duração da vida obscura e a brevidade luminosa de uma existência que se torna inesquecível.
Mas Homero oferece também o contraponto. Na Odisseia, é Ulisses quem nos fala, não como herói da glória guerreira, mas como herói do retorno, da resistência e da fidelidade ao próprio lugar. Retido por Calipso na ilha de Ogígia, recebe a oferta da suspensão da mortalidade. Diz Calipso:
“Se as penas antevisses
Que te aguardam, comigo em laço estreito
Imortal ficarias.”
Ao que Ulisses responde:
“Sublime deusa...
Mas para os lares meus partir suspiro.”
Essa resposta contém uma das mais profundas lições da cultura ocidental. Ulisses recusa a imortalidade biológica porque sabe que viver para sempre, longe da própria casa, dos próprios vínculos e da própria identidade, seria uma sobrevivência vazia. Prefere regressar a Ítaca. Prefere o destino próprio à sedução de uma perpetuidade sem pertencimento.
Essas duas figuras — Aquiles e Ulisses — parecem-me extraordinariamente adequadas para pensar o sentido de uma posse acadêmica. De um lado, Aquiles nos ensina que a vida humana pode transcender a sua duração por meio da excelência, da coragem, da obra e da glória merecida. De outro, Ulisses nos ensina que toda grandeza autêntica deve permanecer fiel à casa a que pertence. A Academia de Medicina da Bahia reúne essas duas lições. Ela preserva a memória dos que alcançaram permanência pelo mérito e, ao mesmo tempo, chama os vivos a um pacto de fidelidade com a medicina baiana, com suas instituições, com sua história e com seus deveres.
É nesse espírito que assumo a Cadeira nº 2. Não a recebo como ornamento, mas como encargo. Não a recebo como ponto de chegada, mas como compromisso renovado. Não a recebo como título isolado, mas como inserção numa corrente de mulheres e homens cuja vida intelectual, científica e moral excedeu a esfera privada e se fez patrimônio público.
Permitam-me, portanto, voltar-me, antes de tudo, para o patrono desta cadeira, o grande Alfredo Thomé de Britto, cuja figura honra de maneira singular a medicina baiana.
Nascido em 21 de dezembro de 1863, na Ilha dos Frades, na Baía de Todos os Santos, Alfredo de Britto ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1880 e formou-se em 1885, já distinguido pela inclinação precoce à pesquisa e pela densidade crítica de seu pensamento. Ainda estudante, publicou trabalhos científicos e revelou desde cedo um espírito intelectualmente inquieto, avesso à repetição e aberto à inovação.
Sua trajetória é uma dessas raras sínteses de talento científico, vocação docente e capacidade institucional. Alfredo de Britto produziu estudos em áreas diversas, como propedêutica, histologia, cardiologia, hematologia, cirurgia, infectologia, história da medicina e, de modo marcante, radiologia. Em 1888, prestou concurso e tornou-se Adjunto da 1ª cadeira de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Bahia, sendo Lente Substituto da 7ª seção, em 1891. Novamente por concurso, em 1893, alcançou a cátedra de Clínica Propedêutica.
Mas o que o singulariza ainda mais é o seu papel pioneiro na incorporação dos raios X à prática médica brasileira. Alfredo Thomé de Britto é o protagonista nacional na introdução da radioscopia e da radiografia entre nós.
Após viagem ao Velho Mundo, trouxe um aparelho de raios X para ser utilizado na Clínica Propedêutica do Hospital Santa Izabel, de onde partiria uma inovação decisiva para a medicina baiana. Foi com esse espírito pioneiro que, em 1897, no atendimento aos feridos de Canudos, identificou por radioscopia, no soldado Manoel Bertolino dos Santos, as dimensões e a posição do projétil alojado, feito que o consagrou como o primeiro a empregar a radioscopia no Brasil e como referência inaugural de sua utilização na cirurgia de guerra, apenas dois anos após a descoberta dos raios X.
Ao longo da carreira, presidiu a Sociedade de Medicina e Cirurgia, foi Benemérito da Liga Baiana contra a Tuberculose, da qual exerceu as funções de 2º Secretário, Vice-Presidente e Presidente, tendo promovido, em sua gestão, a construção do edifício do Dispensário e outros importantes melhoramentos em favor da campanha antituberculosa. Presidiu, ainda, o 6º Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, ocupou com distinção a Cadeira de Higiene e deixou a marca de sua autoridade moral e intelectual em diversas instituições da vida baiana.
Diretor da Faculdade de Medicina da Bahia entre 1901 e 1908, Alfredo Britto imprimiu à sua gestão extraordinário dinamismo. Nesse período, deu início à publicação da importante Revista dos Cursos da Faculdade de Medicina da Bahia, firmou o primeiro convênio entre o Estado da Bahia e o Governo Republicano, apontado como precursor do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, e impulsionou a construção de pavilhões destinados ao atendimento clínico, como o de Clínica Obstétrica da Maternidade Climério de Oliveira, o pavilhão do Asilo São João de Deus, que mais tarde receberia seu nome, e a inauguração do Instituto Clínico da Faculdade, concebido para trabalhos, pesquisas e exames.
Na sua gestão ocorreu, também, o dramático incêndio do prédio da Faculdade, no Terreiro de Jesus, em 2 de março de 1905. Diversos espaços da instituição, incluindo a importante biblioteca e modernos equipamentos de laboratório, foram consumidos pelo fogo, numa perda material e simbólica de enorme gravidade.
A atuação de Alfredo de Britto foi decisiva.
Buscou apoio político e financeiro para a reconstrução, mobilizou doações para a recomposição da biblioteca, empenhou-se sem descanso para restaurar o que fora destruído e transformou a calamidade em obra de resistência institucional. Há episódios em que o valor de um homem se mede não apenas pelo que cria em tempos favoráveis, mas pelo que salva quando tudo parece ruir. Alfredo de Britto pertence a essa linhagem.
O preço desse esforço, porém, foi alto. O trabalho de reconstrução foi longo, penoso e, ao que tudo indica, contribuiu para desgastar profundamente sua saúde. Em 6 de junho de 1908, em meio a antagonismos e manobras políticas, foi exonerado da direção da Faculdade de Medicina da Bahia. Há, nesse momento, algo que lembra a coragem cívica dos antigos: a disposição de permanecer fiel a uma obra e a um dever, mesmo quando a recompensa não vem sob a forma da justiça imediata. As instituições verdadeiramente grandes também são feitas desses sofrimentos silenciosos, dessas fidelidades sem aplauso, desses homens que não abandonam a casa comum quando ela mais precisa ser defendida.
Morreu cedo, em 13 de maio de 1909, com apenas 45 anos.
É inevitável não regressar a imagem de Aquiles.
Também Alfredo de Britto teve uma vida breve, mas não uma vida pequena. A sua existência foi curta em anos, porém imensa em densidade. Não lhe coube a velhice longa. Coube-lhe, contudo, a permanência do nome.
Tornou-se patrono da Cadeira nº 32 do Instituto Baiano de História da Medicina, bem como da Cadeira nº 38 da Academia de Letras da Bahia e desta própria Cadeira nº 2 da Academia de Medicina da Bahia. Em sua trajetória, vê-se com nitidez que a verdadeira imortalidade acadêmica nasce da capacidade de servir, de construir e de deixar, nas instituições, e nas pessoas, uma obra duradoura.
Seu legado sobreviveu na Faculdade, nos serviços, nas homenagens, na placa que reconheceu sua atuação na Maternidade Climério de Oliveira, na Medalha Professor Alfredo Thomé de Britto, instituída pela Faculdade para distinguir formandos de destaque na pesquisa e na produção acadêmica, na Rua Alfredo Britto, ao lado da Faculdade, no Anfiteatro Alfredo Britto. Ao passar por aquela rua, da biblioteca e do Memorial da Medicina, o nome que ali está não é apenas uma inscrição urbana: é uma forma de continuidade.
Desde a fundação da Academia de Medicina da Bahia, a Cadeira de nº 2 foi ocupada por homens de perfil diverso, mas igualmente dignos de memória. O primeiro deles foi Clarival do Prado Valladares, nascido em Salvador, em 26 de setembro de 1918, e falecido no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1983. Nele, a formação médica conviveu de modo raro e fecundo com a crítica de arte, a história cultural, a pesquisa iconográfica, a docência e a reflexão sobre o patrimônio. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1941, defendeu doutorado na UFBA em 1952; entre 1953 e 1956, realizou pós-graduação em Patologia, na Universidade de Harvard, e em Biologia, no Massachusetts Institute of Technology (MIT); de volta ao Brasil, tornou-se docente de Anatomia Patológica e também professor de História da Arte.
Clarival encarna, de modo exemplar, a vocação da tradição médica baiana para o diálogo entre ciência e humanidades. Seus estudos sobre religiosidade, arte popular e cultura brasileira encontraram expressão marcante em livros como Riscadores de Milagres, de 1967, obra que ajudou a reconhecer, nos ex-votos e em outras expressões da arte popular, não simples curiosidades marginais, mas formas densas de memória, religiosidade e sensibilidade. Não por acaso, foi lembrado como “o acendedor de lampiões”.
Certa vez, disse Clarival:
“É o tempo de assuntar: é o tempo que se demora para que o consumo de uma impressão seja maior; mais penetrante. É o tempo da música, é o tempo do místico, é o tempo da reza, é o tempo de tudo. Nós é que vamos batizar com ‘arte’ uma série enorme desse tempo de assuntar que os grupos humanos praticam.”
Nessa reflexão se reconhece uma verdadeira antropologia da sensibilidade. O nome de Clarival permaneceu não apenas nos círculos universitários, mas também em homenagens públicas como o Hospital Geral Prado Valladares, na cidade de Jequié, o Prêmio Clarival do Prado Valladares da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA). Além disso, há também, por iniciativa da Organização Odebrecht, o Prêmio Clarival do Prado Valladares, voltado ao incentivo da pesquisa histórica e da produção editorial inédita sobre a historiografia do Brasil. São homenagens eloquentes, porque demonstram que sua memória permaneceu viva em esferas diversas — a medicina, a crítica de arte, a historiografia, a cultura e a vida pública. Em Clarival, esta cadeira adquiriu uma amplitude humanística notável.
O segundo ocupante desta cadeira foi Nelson de Carvalho Assis Barros, nascido em Salvador, em 16 de março de 1929, e falecido em 14 de março de 2015. Médico, professor, dirigente da categoria e gestor público, Nelson Barros pertence à estirpe dos homens cuja grandeza se mede não apenas pelas ideias que formularam, mas pelo número de vidas que ajudaram a formar. Fez o curso médico na Bahia, graduando-se em 1955, e cedo se deixou seduzir pela Pediatria, à qual dedicaria o melhor de sua inteligência, de sua sensibilidade e de sua energia.
Sua carreira universitária foi brilhante e longa. Tornou-se professor da Faculdade de Medicina da Bahia, alcançando a titularidade da cátedra de Pediatria em 1974. Exerceu múltiplas funções acadêmicas, chefiou departamento, coordenou residência, integrou colegiados, participou de bancas, incentivou a criação de especialidades pediátricas e, em 2005, foi reconhecido pela UFBA com o título de Professor Emérito. Paralelamente, desenvolveu intensa atuação associativa e institucional: fundou a Sociedade Baiana de Pediatria, presidiu a Academia Brasileira de Pediatria, liderou congressos, implantou serviços e exerceu, entre 1983 e 1986, o cargo de Secretário de Saúde do Estado da Bahia.
Mas talvez a palavra que melhor o defina seja mestre. As fontes que evocam sua vida insistem em sua capacidade agregadora, em seu estímulo aos mais jovens, em sua presença formadora, em sua ação constante para fortalecer a Pediatria baiana. É uma forma belíssima de imortalidade. Há homens cuja memória permanece em livros; outros permanecem em edifícios; outros, ainda, em descobertas técnicas. Nelson Barros permanece, sobretudo, em discípulos, serviços, escolas e modos de exercer a profissão. Sua sobrevivência é pedagógica. Vive naquilo que ensinou, no que inspirou, no que ajudou a consolidar.
No meu caso, essa afirmação tem também um valor profundamente pessoal. Nelson Barros foi meu professor de Pediatria nos anos de estudante. E, por isso mesmo, quando hoje o evoco, não o faço apenas como figura da história institucional desta cadeira, mas também como presença viva da minha própria formação. Há professores que nos ensinam uma disciplina; e há mestres que passam a integrar a memória com que atravessamos a profissão. Para mim, o Professor Nelson Barros pertence claramente a esta segunda categoria.
O último titular desta cadeira antes da presente sucessão foi André Ney Menezes Freire, cuja posse como acadêmico titular da Academia de Medicina da Bahia ocorreu em 4 de dezembro de 2015, na histórica Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus. Professor Titular de Cirurgia, deu continuidade, em nosso tempo, à tradição de excelência técnico-científica, compromisso universitário e atuação acadêmica que distingue esta cadeira.
Professor André Ney foi meu professor e é, para mim, mais do que um nome na sucessão institucional desta cadeira. Ele pertenceu ao mesmo universo departamental em que desenvolvi minha vida universitária, no âmbito do Departamento de Anestesiologia e Cirurgia. Formamos juntos uma chapa para concorrer à chefia do departamento, e guardo com gratidão a lembrança de que a minha própria chegada à chefia se ligou, em grande parte, àquela iniciativa inicial dele. Ao recordá-lo hoje, recordo não apenas o acadêmico e o professor, mas também o colega cuja confiança teve significado concreto na minha trajetória acadêmica.
Ao evocar esses nomes — Alfredo Thomé de Britto, Clarival do Prado Valladares, Nelson de Carvalho Assis Barros e André Ney Menezes Freire — percebemos que esta cadeira não abriga uma única forma de grandeza. Nela convivem o pioneirismo científico, a construção institucional, a interdisciplinaridade humanística, o magistério formador, a liderança profissional e a excelência cirúrgica. Talvez seja essa a marca mais bela da tradição que hoje recebo: a ideia de que a medicina, para ser verdadeiramente grande, precisa ser ao mesmo tempo ciência, ensino, cultura, serviço e caráter.
Assumir esta cadeira é, portanto, aceitar uma herança complexa. Não me cabe imitá-los, porque cada vida possui o seu desenho próprio, a sua circunstância e o seu chamado particular. Cabe-me, isso sim, ser digno deles. Cabe-me compreender que a palavra imortal, em academias como esta, nunca foi prêmio decorativo; foi sempre exigência moral. Quem é recebido numa cadeira não se eleva acima de seus pares por privilégio. Antes, submete-se a uma medida mais alta de responsabilidade. Passa a viver sob a vigilância benigna da memória. Passa a dever aos que se foram uma fidelidade ativa. Passa a responder, diante dos vivos e dos que virão, pelo nome que recebeu em guarda.
Hoje, ao refletir sobre essa trajetória que chamamos de imortalidade, ocorre-me também que nenhuma permanência verdadeira é obra da solidão. Aquiles não lutou sozinho; Ulisses não navegou sozinho, senão quase ao termo extremo de sua travessia. Também entre nós, o privilégio de ser lembrado não nasce apenas do esforço individual, mas de uma construção partilhada, tecida pela presença da família, dos amigos, dos mestres, dos colegas, dos alunos e dos companheiros de jornada.
E aqui rendo homenagem, antes de tudo, à minha mãe, Nilce Maria Gusmão Souza Cunha, cuja dedicação incansável transformou o amor em uma forma de cuidado; e ao meu pai, Roosevelt Batista Nascimento da Cunha, homem de trabalho incansável que me ensinou pelo exemplo a dignidade do esforço cotidiano, da palavra honrada e da responsabilidade assumida.
À minha esposa, Andréa Mendonça Gusmão Cunha, companheira de todas as jornadas, agradeço o amor, a confiança e o apoio incondicional. Foi presença constante nos momentos de alegria e de dificuldade, voz serena nos instantes de dúvida, parceira leal nas decisões mais importantes de minha vida. Tem sido, ao longo dos anos, meu braço direito, dividindo responsabilidades, sustentando sonhos e tornando possíveis realizações que jamais seriam alcançadas sozinho.
Às minhas filhas, Jade Mendonça Gusmão Cunha e Jamile Mendonça Gusmão Cunha, meu orgulho e minha inspiração. Jade, pela força com que enfrenta os desafios da vida e pela dedicação com que exerce a maternidade, demonstrando diariamente a coragem e a perseverança que constroem as grandes histórias. Jamile, pela disciplina, pelo foco e pela dedicação aos seus objetivos, recordando-me que os talentos florescem plenamente quando encontram o terreno fértil do trabalho e da determinação. E à minha neta Joana Mendonça Gusmão Aguiar Santos, cuja presença nesta cerimônia acrescenta uma ternura especial e renova esperança de continuidade entre as gerações.
Essa construção se faz ainda com os amigos do Colégio Militar de Salvador, da turma da Faculdade de Medicina da Bahia, da Residência Médica na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com os grandes professores e mestres que me orientaram; com os colegas médicos, cirurgiões, residentes e profissionais de saúde com quem tive o privilégio de compartilhar plantões, enfermarias, centros cirúrgicos e projetos.
Ela se faz também com os companheiros do Hospital São Rafael, do Hospital Aliança, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, do Hospital Aeroporto, do Hospital do Subúrbio, do Hospital Municipal de Salvador, da Santa Casa da Bahia do Hospital Municipal do Homem, do Departamento de Anestesiologia e Cirurgia, da Faculdade de Medicina da Bahia, da Universidade do Estado da Bahia e da Faculdade Zarns Salvador. Em cada uma dessas instituições encontrei não apenas ambientes de trabalho, mas amizades, aprendizados, desafios e projetos que passaram a integrar a minha própria história.
Faço ainda um agradecimento especial aos meus alunos, às ligas acadêmicas — em particular à Liga Acadêmica de Emergências Médicas e Trauma (LAEME) e à Liga Acadêmica de Medicina Interna e Cirurgia (LAMIC) — e aos inúmeros residentes de Cirurgia Geral que me concederam o privilégio de participar de sua formação. Se ensinar é uma das formas mais nobres de permanência, muito do que sou devo à oportunidade de aprender enquanto buscava ensinar.
E tudo isso se faz, enfim, sempre em favor daqueles que constituem nosso foco último e nossa razão maior: os pacientes. A eles devo as lições mais profundas de humanidade, coragem e esperança. Foram eles que confiaram em nossas mãos nos momentos de maior fragilidade; foram eles que também batalharam e atravessaram comigo essa caminhada; e é a eles que, em última análise, deve se dirigir todo o sentido da medicina que exercemos e do legado que desejamos construir.
Na noite passada, ultrapassando a madrugada, eu estava em mais uma batalha, mas não estava só. Comigo estavam meus amigos, Dr. Adriano Britto de Campos e Dr. Antônio Falcão Nunes Neto, grandes companheiros de centro cirúrgico. Também estava lá minha paciente há 19 anos, além de sua belíssima família. Dedico a ela este breve momento.
É justamente por isso que a lição de Ulisses se torna ainda mais decisiva. Porque ingressar na Academia de Medicina da Bahia é, de certa forma, regressar a uma casa. Não apenas a esta casa institucional, mas à casa maior da medicina baiana, da Faculdade de Medicina da Bahia, da tradição de mestres que nos formaram, do idioma moral em que aprendemos a compreender a profissão. Toda posse acadêmica autêntica é também um retorno: retorno às origens intelectuais, retorno às fontes da vocação, retorno à consciência de pertencimento.
Se Aquiles nos fala da glória que vence o tempo, Ulisses nos fala do dever de regressar ao lugar que dá sentido à nossa travessia. E eu diria que só se torna legítima a permanência da memória quando ela nasce dessa dupla fidelidade: fidelidade à excelência e fidelidade à casa. Sem excelência, a memória é favor. Sem casa, a glória é vaidade. A Academia existe precisamente para impedir essas duas deformações. Ela preserva o mérito e o vincula a uma tradição concreta, enraizada, histórica.
Por isso, ao tomar posse nesta Cadeira nº 2, desejo afirmar não apenas minha gratidão, mas minha disposição de serviço. Serviço à Academia, serviço à medicina, serviço ao ensino, serviço à Bahia. Recebo esta honra com humildade, porque conheço a estatura dos nomes que me antecederam. E recebo-a com esperança, porque acredito que instituições como esta continuam necessárias num tempo frequentemente marcado pela pressa, pelo esquecimento e pela superficialidade.
Se me perguntassem, portanto, o que significa tornar-se imortal nesta noite, eu responderia com a máxima simplicidade: significa assumir o dever de merecer memória. Significa compreender que nenhum título nos salva do esquecimento se não vier acompanhado de obra, dignidade, generosidade, seriedade intelectual e compromisso público. Significa aceitar que a verdadeira imortalidade acadêmica não é uma propriedade individual, mas uma construção coletiva, feita pela confiança dos pares, pelo julgamento do tempo e pela utilidade moral do legado.
Senhor Presidente, Minhas Confreiras e Meus Confrades, Senhoras e Senhores,
Ao concluir estas palavras, curvo-me com respeito diante da memória de Alfredo Thomé de Britto, patrono desta cadeira; diante da inteligência ampla e luminosa de Clarival do Prado Valladares; diante do magistério generoso de Nelson de Carvalho Assis Barros; e diante da presença cirúrgica de André Ney Menezes Freire. Recebo a sucessão desses nomes como uma confiança depositada.
Que eu possa honrá-la com trabalho, lealdade e discrição. Que eu possa contribuir, segundo minhas forças, para a vitalidade desta Academia. Que eu jamais esqueça que ocupar uma cadeira é, antes de tudo, servir a uma memória. E que, se algum sentido pode ter a palavra imortalidade entre nós, ele seja sempre este: o de uma vida dedicada de tal modo ao bem, ao saber e à comunidade, que a morte já não tenha a última palavra.
Muito obrigado.