Academia de Medicina da Bahia Scientia Nobilitat
Tamanho da Fonte
Luiz Antônio Rodrigues de Freitas
Luiz Antônio Rodrigues de Freitas
Membro Titular
14/07/2021
20:00
Saudação proferida por Luiz Antônio Rodrigues de Freitas na Solenidade passagem de Bernardo Castro Galvão Filho à membro emérito da Academia de Medicina da Bahia

ACADEMIA DE MEDICINA DA BAHIA SAUDAÇÃO AO ACADÊMICO BERNARDO CASTRO GALVÃO FILHO PELO ACADÊMICO LUIZ ANTÔNIO RODRIGUES DE FREITASPASSAGEM DE MEMBRO TITULAR DA CADEIRA 40 DA ACADEMIA DE MEDICINA DA BAHIA PARA MEMBRO EMÉRITO

Senhor Presidente da Academia de Medicina da Bahia, Confrade Antônio Carlos Vieira Lopes, Senhor Presidente da Academia de Ciências da Bahia, Confrade Jailson Bittencourt de Andrade, Vicente Herculano da Silva Presidente da Confederação das Academias de Medicina do Brasil, ao cumprimentá-los, estendo os cumprimentos os demais Acadêmicos que compõem essa ilustre mesa. Confrade Acadêmico Jecé Brandão, representando o CRM, em seu cumprimento, o faço também aos demais representantes das entidades médicas. Profa. Dra. Marilda Gonçalves, Diretora do IGM da FIOCRUZ, meus cumprimentos. Sra. Ana Maria Castro, esposa do Confrade Bernardo Galvão, a cumprimento e aos familiares, amigos e convidados do homenageado. Confrade Ac. Ernane Gusmão que hoje também passará a Membro Emérito desta Academia, senhoras e senhores, minhas confreiras e confrades, meus respeitosos cumprimentos.

Hoje é dia de júbilo para a Academia deMedicina da Bahia que se engalana para comemorar 63 anos de sua exitosa existência, homenagear seus novos membros eméritos e dar posse à sua diretoria para mais um biênio.

Bernardo Galvão Castro Filho tomou-se Membro Titular da Academia de Medicina da Bahia em 10 de dezembro de 2002, sucedendo Dr. Renato Marques Lobo, na cadeira de número 40, cujo patrono é Dr. Sabino Lobo da Silva. O Acadêmico Mitermayer Galvão dos Reis propôs que Bernardo Galvão passasse à condição de membro Emérito desta Academia e foi devidamenteapoiada por outros acadêmicos, e o pleito foi acatada pela Diretoria em 21/09/2020. Em 21/06/2021 tomou posse na cadeira que ocupava Bernardo Galvão, o confrade Álvaro Augusto Cruz Filho, meu colega de turma, querido amigo, que com certeza irá honrar e dignificar este acento.

Bernardo Galvão, no seu discurso de posse nesta Academia, referiu-se ao culto à imortalidade nas Academia, citando o Prof. Edivaldo Boaventura que, em artigo publicado nos Anais de nossa Academia disse “a imortalidade é a presença permanente dos que se foram em nós”. E muitos se foram, Galvão, e muitos irão, mas permanecerão em nós enquanto aqui estivermos, porque nos constituímos de uma amalgama em que muitos estiveram, contribuíram e indelevelmente permanecem em nós até o fim. Acerta a Academia de Medicina da Bahia neste movimento de renovação, ao promover seus ilustres membros titulares que completaram 75 anos de idade, com efetiva contribuição para o engrandecimento da Medicina e da Acadêmica, à condição

de Membro Emérito. Este é o título conferido àqueles que se destacam em suas atividades profissionais, na ciência e/ou nas artes por seu notório saber e competência. Em síntese, é o reconhecimento do sábio por seus pares. Manter o Emérito contemporâneo dos novos acadêmicos é fundamental para a perpetuação da cultura e da tradição da instituição e teremos falhado, todos nós, se não formos capazes de perpetuar o nosso Sodalício além dos limitesde nossas existências.

}Nesses breves 15 minutos que tenho para o panegírico ao querido confrade, não tenho dúvidas ser fácil demonstrar o mérito de nosso homenageado a esse título, e o acerto da Academia, por sua justa concessão, por mantê-lo com todo o seu entusiasmo e determinação, a servir à nossa Academia e dar exemplo para todos nós, sobretudo aos que à pouco se somaram a nossa plêiade. Agradeço ao meu querido confrade e amigo Mitermayer Reis a concessão que faz para que eu pronunciasse esse elogio solene.

Bernardo Galvão Castro Filho nasceu em Salvador em 30 de maio de 1945, filho de D. Maria de Lourdes Correa Castro e do Prof. Bernardo Galvão Castro. O Prof. Bernardo, seu pai, iniciou o curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia, mas no terceiro ano resolveu deixar medicina e cursar História e Geografia, tornando-se um educador dedicado à formação de várias

gerações de jovens, primeiro como vice-diretor do Colégio Sofia Costa Pinto e depois no seu próprio colégio, o Pâmphilo de Carvalho na Boa Vista de Brotas, depois nominado Colégio Bernardo Galvão em sua homenagem. Prof. Bernardo era um humanista, generoso, includente, trazia para o convívio de seu lar os alunos internos do Sofia Costa Pinto, sua casa estava sempre cheia e à hora do almoço havia sempre lugar para mais alguém. Nosso Bernardo estudou nas escolas de seu pai e não resta dúvidas a marcante influência do Prof. Bernardo Galvão na vida de seu filho como elemento determinante em sua formação humanista e neste seu pendor de mestre includente, generoso e modelo de muitos discípulos ao longo da vida. É isso mesmo Galvão – a imortalidade de nossos pais é a presença permanente deles em nós.

Bernardo cursou o Científico no Colégio Central da Bahia. Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1964 e formou-se em 1969. No Hospital Prof. Edgar Santos da UFBA, entre 1970-1971, fez a Residência em Anatomia Patológica. Por um curto período, em 1972, ensinou Patologia na Universidade de Brasília e em 1973 ingressou na primeira turma do Mestrado em Patologia Humana da UFBA. Sua dissertação foi orientada pelo Dr. Paul Henri Lambert da Universidade de Genebra sobre a Imunopatologia da Tripanosmíase Experimental e defendida em 1974. Em seguida iniciou o doutorado, com o mesmo orientador em Genebra na Suíça, concluído em 1977 com a defesa da tese intitulada “O papel da Resposta imune do hospedeiro no desenvolvimento

de lesões musculares no curso da Tripanosomose africana”. Resultaram três trabalhos publicados e o prêmio Ettiénne Gorjux da Faculdade de Medicina de Genebra pela melhor tese do ano.

De volta ao Brasil em dezembro de 1977 iniciou sua carreira de pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Era o início da reconstrução do Instituto Oswaldo Cruz depois do nefasto “Massacre de Manguinhos” imposto pela Ditadura Militar. Implantou e coordenou entre 1980- 1984, com recursos da OMS o Centro de Imunologia Parasitária na FIOCRUZ, atraiu jovens pesquisadores dentre eles Lain Pontes de Carvalho, Wilson Savino, Cláudio Ribeiro dos Santos, Mariza Morgado, Vera Bongertz dentre outros, e juntos construíram o Departamento de Imunologia, ganharam protagonismo e se destacaram nacional e internacionalmente. É aquilo mesmo que você disse em seu discurso de posse na Academia sobre a diferença entre ser professor e mestre, citando Içamí Tiba “Mestre é um modelo de vida, uma identidade ideológica. Com o mestre não se busca simplesmente a aprovação escolar mas, pela sua aceitação pessoal, ter a honra de fazer parte de sua vida ou, pelo aprendizado, ter o orgulho de divulgar suas ideias”. Você é mestre de seus discípulos, lhes concedeu protagonismo e independência e nós sabemos que vários deles compactuaram com suas ideias e ideais, vivendo conforme. Seu departamento na FIOCRUZ pela competência e produtividade se tornou um centro colaborador da OMS e da Oficina Panamericana de Saúde em Imunologia Parasitária.

Em 1982, Bernardo conquistou protagonismo na virologia médica. A AIDS se alastrava pelo mundo devastando o sistema imune de suas vítimas. Antevendo as dimensões que o problema teria no Brasil estabeleceu uma linha de pesquisas sobre AIDS. Em 1985, com a ajuda do casal de virologistas, seus amigos, Hélio e Peggy Pereira, conseguiu linhagens celulares infectadas pelo

HIV cedidas por Dr. Robert Gallo e implementou técnicas sorológicas para a triagem de sangue em laboratórios da rede pública no Brasil, passo decisivo no controle da transmissão da AIDS por essa via. Em 1987, com sua equipe isolou, pela primeira vez, o HIV na América Latina, etapa  decisiva para compressão de epidemia no Brasil, melhoria dos bancos de sangue e laboratórios da rede pública e integração do grupo à rede internacional de laboratórios para isolamento e caracterização do HIV-1 coordenada pela OMS, fato de grande repercussão nas comunidades científicas.

Em 1988, Bernardo retornou à Bahia. Com apoio da Fundação Banco do Brasil criou o  aboratório Avançado de Saúde Pública (LASP), no Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz com o projeto de “Isolamento e caracterização do HIV no Brasil”, visando a descentralização das ações de saúde pública da Fiocruz. Havia o temor de que devido as caracteristicas sociodemográficas de Salvador

a epidemia assumisse proporções devastadoras. Três anos depois, 1991, em reconhecimento  pelo seu desempenho, o LASP passou a integrar o Programa Mundial de AIDS das Nações Unidas e Organização Mundial de Saúde participando da “Rede Internacional de Laboratórios para Isolamento e Caracterização do HIV”. Esta profícua colaboração internacional, revelou a diversidade do HIV e transferiu tecnologia para o Brasil, se estabelecendo um núcleo de excelência nesta área. Em 1993, Bernardo passou a coordenar a Rede Nacional de Isolamento do HIV no Brasil com suporte do Ministério da Saúde (MS) e do Programa Mundial de AIDS/  Organização Mundial da Saúde (UNAIDS/WHO).

Abrindo novas fronteiras para o trabalho científico e de assitência em saúde pública, a  inquietação de Galvão despertou seu interessse pela infecção pelo vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV). Demonstrou a infecção em doadores de sangue em capitais de vários estados do Brasil, sendo Salvador a de maior prevalência. No início dos anos 2000, diante da demonstração de que 2% da população desta cidade era infectada pelo HTLV (cerca de 50.000

pessoas), mais as mulheres com baixas renda e escolaridade, criou um centro multidisciplinar para a assistência dos pacientes. Por meio de convênio biinstitucional entre a Fundação Bahiana para o Desenvolvimento da Ciência (FBDC) e a Fiocruz foi inaugurado, em 2002, o Centro  Integrado de HTLV (CHTLV) no campus de Brotas da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

(EBMSP) que presta assistência integral aos doentes, sendo seu coordenador.

Galvão tem uma impressionante produção científica: publicou 246 artigos científicos, sete neste ano de 2021. Orientou 37 dissertações de mestrado e seis estão em andamento; além de 27 teses de doutorados. Organizou mais de 20 eventos científicos nacionais e internacionais com destaque para Simpósio Internacional sobre HTLV-1 no Brasil em 2017 e Congresso de Virologia em 2005, Foi assessor em vários comitês e câmaras técnicas com destaque para sua atuação na OMS (Steering Comitee da OMS para AIDS por mais de 10 anos), no CNPq e na FAPESB; além de representante da América Latina nas Sociedade Internacional de AIDS e na Sociedade Internacional de Retrovírus.

Além das diversas atividades já citadas foi: Vice-Diretor do Instituto Oswaldo Cruz (1981-1982); Vice-diretor de Ensino e Pesquisa do CPqGM (hoje Instituto Gonçalo Moniz), É pesquisador do CNPq no nível 1 A; Professor Titular da EBMSP com destacado papel na implantação do Programa de Pós- Graduação em Medicina e Saúde Humana do qual foi coordenador; Membro da Academia de Ciências da Bahia, tendo feito parte de seu Conselho Diretor até recentemente; Membro da Academia de Medicina da Bahia, sendo seu atual e futuro vice-presidente.

Bernardo Galvão é um homem de larga formação humanistica, culto e interessado pelo próximo e pelo que se passa no mundo. Gentil e cordato, sincero, sempre tem posições sensatas, refletidas, coerentes e firmes. Tem a simplicidade e discrição dos grandes, Um homem  identificado com sua família, é casado com D.Ana Maria, psicopedagoga a quem carinhosamente sempre se refere como Aninha. Têm duas filhas, Ana Karina, fisoterapêuta e advogada que lhe deu três netos Thiago, Bernardo e Fernando; e Ana Verena, psicologa, com mestrado e  doutorado, mãe de sua neta Clara. O cuidar do outro está no DNA da família e suas filhas  também trabalham no Centro Integrado de HTLV no Campus de Brotas da EBMSP.

Já para concluir e para mostrar um pouco mais da grandeza humanística de Bernardo como médico, cientista e cidadão não posso deixar de me referir ao Projeto Cidadania pela Educação e Saúde uma ação comunitária em Monte Gordo (Camaçari-Ba). Diante das desigualdades observadas entre a comunidade na qual tem casa na Praia de Guarajuba e a observada na localidade de Monte Gordo, em conjunto com a FAPESB e a Escola Bahiana de Medicina, deu  inicio ao projeto que visava o treinamento de membros da comunidade para ações na saúde e educação na comunidade. A ampla visão incluiu também incursões nas arte, teatro e convivio social para conhecimento e troca de experiência. Os jovens da comunidade participaram do Congresso de Virologia e a ação “virologia na praia” visava divulgar o conhecimento científico, além de ações de conscientização e prevenção. Este projeto resultou em trabalho de pós- graduação de Ney Boasorte orientado por ele. Bernardo promovia em sua casa encontros com as pessoas da comunidade para troca de vivências e experiências, inclusive gastronômicas. Até hoje ele promove almoços em sua casa nos quais, às vezes é ele quem cozinha e oferece vinhos aos seus amigos da comunidade e, outras, são eles que o fazem. Esse é o Bernardo humanista,  cientista sem “Torre de marfim” que nos encanta e emociona.

Concluo pedindo licença ao nosso Emérito para usar a parodia ao poema de Drummond que ele fez por ocasião de sua aposentadoria em 2015 na FIOCRUZ ao ser homenageado pelos colegas do LASP

E agora, José?
a festa não acabou,
a luz não apagou,
o povo não sumiu,
a noite não esfriou
E José, e agora?
Se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!
Você não morre José!
Porque tem amigos que o estimulam e o apoiam
Porque tem uma mulher forte, companheira, meiga e bela
Porque tem uma família que rejuvenesce! Revigora as forças! e redobra a esperança!

Um brinde, a Bernardo e a todos, à vida que segue, ao trabalho que não cessa e à esperança que não morre jamais.

Muito obrigado.

Academia de Medicina da Bahia
Praça XV de novembro, s/nº
Terreiro de Jesus, Salvador - Bahia
CEP: 40026-010

Tel.: 71 2107-9666
Editor Responsável: Acadêmico Jorge Luiz Pereira e Silva
2019 - 2024. Academia de Medicina da Bahia. Todos os direitos reservados.
Produzido por: Click Interativo - Agência Digital