Academia de Medicina da Bahia Scientia Nobilitat

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Bernardo Galvão Castro Filho <br> Membro Emérito
Bernardo Galvão Castro Filho
Membro Emérito
Ocupante Anterior - Cadeira 40
09/07/2026
21:00
Saudação á Academia de Medicina da Bahia nº 68º Aniversário

Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia de Medicina da Bahia
Professor Dr. César Augusto de Araújo Neto
Insignes confreiras e confrades.

Senhoras e Senhores 

É com profunda honra que me uno à celebração do sexagésimo oitavo aniversário desta Academia, instituição que representa não apenas a excelência científica, mas também a memória viva da construção da medicina na Bahia e em nosso país.

Não falarei sobre as histórias das academias que já foram, tão brilhantemente, expostas pelo nosso querido confrade Luís Rodrigues Freitas no 660 aniversário. 

Ele cita: “O nosso lema é “scientia nobilitat – A ciência enobrece”.

Mas, ao evocarmos essa trajetória, reconhecemos que nossas academias foram, ao longo do tempo, não só espaços de produção de conhecimento e influência sobre os rumos da saúde, mas também espelhos das desigualdades da sociedade brasileira.

Celebrar esta história é, portanto, também assumir a responsabilidade de transformá-la.

A medicina, para ser plena, precisa ser não apenas científica, mas justa — não apenas técnica, mas profundamente humana.

A história da medicina no Brasil nos oferece exemplos dessa união entre ciência e compromisso social. 

O baiano Juliano Moreira, patrono da cadeira nº 30 desta Academia, cuja formação e trajetória foram retratadas pelo confrade Ronaldo Jacobina, na obra “Juliano Moreira: da Bahia para o mundo a formação baiana do intelectual de múltiplos talentos (1872-1902)”, foi um dos grandes pioneiros da psiquiatria científica no Brasil. 

Em uma época marcada pelo racismo científico, Juliano rejeitou a ideia de superioridade ou inferioridade racial, defendendo que as doenças mentais tinham origem em condições sociais e sanitárias, e não na raça.

Sua trajetória simboliza não apenas a excelência intelectual, mas a superação, o compromisso social e a luta contra o preconceito — valores que permanecem atuais e indispensáveis à medicina contemporânea.

Em reconhecimento a excelência da sua obra foi Presidente da Academia Brasileira de Ciências no período entre 1926e1929, patrono da cadeira 57 da Academia Nacional de Medicina, Patrono da cadeira 27 da Academia Pernambucana de Medicina. e deu nome ao Prêmio Juliano Moreira, instituído pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia

Ao humanizar o tratamento dos pacientes psiquiátricos, ele nos ensinou que a ciência só avança verdadeiramente quando guiada por princípios éticos.

Da mesma forma, a presença das mulheres na medicina representa uma das mais importantes transformações da nossa história.

Em 1832, uma lei determinou a obrigatoriedade do curso superior para atuar na área da saúde. Só existiam duas faculdades de medicina no Brasil, uma no Rio de Janeiro e outra na Bahia. 

Pela lei, as mulheres podiam participar especificamente do curso de Partos, mas a pressão de uma sociedade machista era grande demais, impedindo quase todas de se matricular.

Quem quebrou esse tabu foi Marie Josephine Mathilde Durocher, conhecida como Madame Durocher a primeira mulher a receber o título de parteira no Brasil, do Curso de Partos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1834.

Teve aulas particulares com o médico Joaquim Cândido Soares de Meireles, homem negro que também desafiou os preconceitos se tornou médico da Corte.

Ele foi o fundador da Academia Imperial de Medicina, atual Academia Nacional de Medicina, e patrono da cadeira de número 1.

Madame Durocher foi a parteira mais conhecida da capital do Brasil durante o século 19, atendendo indigentes, profissionais do sexo, e cuidando do nascimento da princesa Leopoldina, filha do imperador Pedro II.

Ela foi a primeira mulher a fazer parte da Academia Imperial de Medicina em 1871.

Para se ter uma ideia do tamanho do machismo, reinante na Academia, a próxima mulher a entrar na instituição ocorreu 55 anos depois, em 1926. 

Portanto, não podemos deixar de refletir, sobre a presença das mulheres nas academias de medicina.

 A Academia Nacional de Medicina, fundada, em 1829, — como tantas outras —, continua sendo um espaço predominantemente masculino. 

Ao longo do século XX, a entrada feminina ocorreu de forma lenta e desigual.

Embora, as mulheres tenham conquistado crescente protagonismo na medicina brasileira, sua representação nas Academias ainda está aquém do desejável, revelando a persistência de barreiras ao acesso aos espaços de liderança e reconhecimento científico, como evidenciado em estudos recentes conduzidos por nossa confreira Luciana Silva.

Dados recentes da própria Academia Nacional de Medicina mostram que, em um universo de cerca de uma centena de membros titulares, apenas um número reduzido é composto por mulheres — o que revela um descompasso entre a realidade da profissão e sua representação institucional. 

Ao longo de quase dois séculos de história, apenas oito mulheres, cerca de 8%, alcançaram uma cadeira na Academia Nacional de Medicina — um dado que evidencia a persistente desigualdade de gênero nos espaços de maior prestígio da medicina.

Somente quase dois séculos após sua fundação, a Academia Nacional de Medicina elegeu sua primeira presidente, para o biênio 2024–2025, um marco histórico que simboliza o avanço das mulheres nos mais elevados espaços da ciência e da medicina brasileiras.

Nesse aspecto, nosso sodalício, embora muito mais jovem, encontra-se em posição mais avançada. Ainda que a representatividade feminina esteja longe do patamar desejável, temos hoje 14 mulheres entre nossos acadêmicos, representando cerca de 28% do quadro efetivo. São profissionais que engrandecem esta Casa e exercem destacado protagonismo na medicina nacional.

Cumpre destacar que a Professora Maria Thereza de Medeiros Pacheco foi a primeira mulher a presidir a Academia de Medicina da Bahia, no período de 1999 a 2003, um feito pioneiro que antecedeu em aproximadamente 25 anos a eleição da primeira presidente da Academia Nacional de Medicina.

Permitam-me saudar as brilhantes mulheres que integram esta Academia nas figuras das Professoras Eliane Elisa de Souza e Azevedo, primeira Reitora da Universidade Federal da Bahia; Maria Luísa Carvalho Soliani, Reitora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública; e Sônia Gumes Andrade, pesquisadora de escol, mestra inspiradora e orientadora de minha dissertação de Mestrado.

As mulheres têm desempenhado papel fundamental na transformação da medicina. Trouxeram novas perspectivas para o cuidado, ampliaram a dimensão humana da prática médica e contribuíram decisivamente para o avanço da ciência e da saúde pública.

Entretanto, esses avanços não nos permitem ignorar o quanto ainda precisamos progredir.

A presença das mulheres nas academias não é apenas uma questão de equidade; constitui uma condição essencial para a excelência científica. Uma ciência mais diversa é uma ciência mais rica, mais crítica e mais capaz de responder aos desafios da sociedade.

Cabe, portanto, às academias reconhecer, valorizar e ampliar a participação feminina — não como uma concessão, mas como o justo reconhecimento de sua competência, de sua liderança e de sua contribuição indispensável para a medicina e para a ciência.

Uma ciência mais diversa é uma ciência mais rica, mais crítica e mais capaz de responder aos desafios da sociedade.

A psiquiatra Nise da Silveira, pioneira e visionária, rompeu com práticas agressivas e desumanizantes e introduziu uma abordagem centrada na escuta, na sensibilidade e na dignidade do paciente. Sua trajetória nos lembra que a medicina não é apenas intervenção — é também cuidado, compreensão e respeito à subjetividade humana.

Entretanto, não podemos falar de justiça na medicina sem reconhecer a contribuição, a resistência e o protagonismo das mulheres pretas na construção da medicina brasileira.

A baiana Maria Odília Teixeira, primeira mulher negra formada em medicina no Brasil, precisou transpor barreiras profundas para ocupar um espaço que historicamente lhe era negado.

E figuras como Iracema de Almeida mostram que a luta pela inclusão racial na medicina não foi apenas uma conquista individual, mas um projeto coletivo de transformação social.

O racismo na área da saúde não é apenas uma questão de preconceito individual, mas uma manifestação de um problema estrutural. 

Ele está incorporado nas práticas, políticas e sistemas de saúde, afetando negativamente a população negra em diversos níveis.

Essa discriminação pode se manifestar de maneira explícita ou implícita, desde a forma como os pacientes são atendidos até as oportunidades oferecidas a professionais de saúde negros. 

Os números revelam a persistência da desigualdade racial na formação médica. 

De acordo com a Demografia Médica do ano de 2023, sete em cada dez médicos residentes são brancos, enquanto apenas 3% se autodeclaram negros.

Esse é um reflexo de problemas muito mais profundos do que se imagina. 

‍O nosso ilustríssimo confrade Roberto Santos que faria 100 anos, teve um papel histórico fundamental para as religiões de matriz africana no nosso estado ao assinar o Decreto Estadual nº 25.095, de 15 de janeiro de 1976. quando foi governador da Bahia

Esse decreto acabou formalmente com a obrigação de os terreiros de Candomblé pedirem autorização policial e pagarem taxas à antiga Delegacia de Jogos e Costumes para poderem realizar seus cultos. culminando com fim da perseguição institucional

A falta de representatividade é outro desafio significativo. 

Poucos médicos e professores negros ocupam posições de destaque em instituições de saúde e ensino.

 Isso dificulta a formação de redes de apoio e mentorias que são essenciais para o desenvolvimento profissional.

Esse é um problema que também se estende aos pacientes. 

Um exemplo é que, em busca de identificação e empatia, muitas pessoas negras buscam atendimento com médicos da mesma comunidade e não encontram esse tipo de suporte.

No entanto, a história da medicina brasileira é também feita de resistências, absolutamente fundamentais.

Luís Anselmo da Fonseca foi médico, professor, escritor negro e abolicionistabrasileiro, imortal fundador e ocupannte da cadeira número 8 da Academia de Letras da Bahia e patrono da cadeira 32 daAcademia de Medicina da Bahia.

Não podemos deixar de referenciar o nosso confrade Antonio Alberto Lopes, primeiro diretor negro da Faculdade de Medicina da Bahia

E se passaram 215 anos para que um professor negro  ocupasse a cadeira de diretor na instituição de ensino superior mais antiga da história do Brasil, numa cidade com uma população predominantemente constituida por afrodescendentes. 

Nosso confrade Antonio Alberto implantou na Faculdade de Medicina um centro de pesquisa internacional voltado para saúde das populações negra e indígena. Na lista das enfermidades, objeto de pesquisa, estão: anemia falciforme, hipertensão arterial, doença renal crônica e acidente vascular cerebral Sugiro a inclusão do HTLV, virus linfotrópico para células T humanas e as doenças associadas a este virus, introduzido no Bahia predominante na era pós-colombiana, atraves do tráfico negreiros. 

Cerca de 2% da população de Salvador vive com HTLV sendo que a prevalencia é maior em mulheres negras e pobres atingido aproximadamente 10 % desta população com idade igual ou maior de 50 anos . Dados publicados  pelo grupo da Profa Dra Fernanda Grassi mostraram que esta infecção se espalha por quase todo terrotório baiano, com cerca de130 mil pessoas infectadas.

Há ainda uma outra dimensão que se impõe com crescente urgência: o enfrentamento do etarismo ou idadismo.

O Brasil vive uma transformação demográfica profunda. 

Tornamo-nos uma sociedade longeva. 

Nunca tivemos tantos idosos — e nunca essa população foi tão ativa, tão presente e tão demandante de cuidado qualificado.

E, no entanto, persistem formas sutis de exclusão, muitas vezes de forma silenciosa.

O etarismo se manifesta quando deixamos de ouvir o paciente idoso, quando reduzimos sua complexidade à sua idade, ou quando limitamos o cuidado com base em pressupostos que não são científicos, mas culturais. Enfim quando deixamos de escutá-lo em sua plenitude.

O idadismo na medicina não se restringe ao paciente ele também alcança, de forma sutil, o próprio médico idoso.

Em uma sociedade que envelhece, cresce o número de médicos que permanecem ativos, produtivos e intelectualmente vigorosos por mais tempo, temos um exemplo marcante no nosso silogeu, o querido confrade Geraldo Leite que festejou recentemente seu centenário.  

E, no entanto, muitas vezes se observa uma desvalorização implícita da experiência, como se a inovação pertencesse exclusivamente aos mais jovens.

Essa visão empobrece a medicina. e contraria seus fundamentos éticos.

O avanço científico precisa da renovação —mas também da memória, da experiência acumulada e da capacidade de julgamento que só o tempo é capaz de formar.

O médico idoso não é apenas alguém que prolonga sua atividade —é portador de um patrimônio imaterial de conhecimento, de prudência clínica e de compromisso ético.

Assim, em uma sociedade longeva, o verdadeiro desafio não é apenas cuidar melhor dos idosos — é construir uma medicina verdadeiramente intergeracional, na qual diferentes experiências e tempos de vida dialoguem e se complementem. 

Trata-se de uma medicina que reconhece o valor de todas as etapas da vida — e que promove o diálogo entre diferentes gerações, tanto no cuidado quanto na formação e no exercício profissional.

De um lado, exige que saibamos compreender melhor as necessidades de uma população que envelhece — mais complexa, mais ativa e mais consciente de seus direitos. De outro, requer que valorizemos a experiência acumulada dos médicos mais idosos, integrando-a à inovação trazida pelas novas gerações.

A medicina intergeracional não opõe juventude e experiência. 

Ela as articula, criando uma prática mais rica, mais equilibrada e mais sábia.

É no encontro entre o conhecimento que se renova e aquele que se sedimenta pelo tempo que se constrói uma medicina verdadeiramente completa e humana.

Não basta prolongar a vida — é preciso garantir  qualidade de vida, autonomia, dignidade, escuta e reconhecimento, tanto para quem recebe quanto para quem exerce a medicina. 

Cuidar da pessoa idosa é reconhecer sua história, sua singularidade, sua humanidade plena.

Assim como aprendemos a enfrentar o sexismo e o racismo, somos agora chamados a enfrentar o etarismo — com a mesma coragem intelectual e o mesmo compromisso ético.

Porque envelhecer não pode ser sinônimo de invisibilidade.

Mas, ao mesmo tempo em que refletimos sobre os desafios do presente, somos chamados a pensar na medicina do futuro.

Vivemos uma época marcada por avanços extraordinários. 

A inteligência artificial, a medicina de precisão, a genômica, a bioinformática e as novas tecnologias digitais, a medicina regenerativa, entre outras inovações, que estão transformando profundamente a forma como diagnosticamos, tratamos e prevenimos doenças.

Essas inovações ampliam nossa capacidade técnica e científica de maneiras antes inimagináveis. 

Entretanto, é importante salientar que a tecnologia, por mais sofisticada que seja, não substituirá aquilo que constitui a verdadeira essência da medicina.

O médico do futuro continuará sendo, antes de tudo, um intérprete da condição humana. 

Caberá a ele utilizar os recursos mais avançados da ciência sem perder a capacidade de ouvir, compreender, acolher e compartilhar decisões com seus pacientes.

A medicina do futuro não poderá ser apenas mais tecnológica; deverá ser mais humana. 

Não poderá ser apenas mais precisa; deverá ser mais inclusiva. 

Não poderá ser apenas mais inovadora; 

Deverá ser também mais comprometida com a redução das desigualdades que ainda marcam nossa sociedade.

O verdadeiro teste da inovação não estará na sofisticação dos equipamentos ou na velocidade dos algoritmos, mas na sua capacidade de promover saúde, aliviar sofrimento e ampliar a dignidade humana.

Nesse contexto, o papel das academias torna-se ainda mais relevante. 

Como espaços de reflexão crítica, produção de conhecimento e defesa dos valores permanentes da profissão, cabe-lhes contribuir para que o progresso científico permaneça sempre subordinado aos princípios que fundamentam a medicina: o respeito à vida, a solidariedade e o compromisso com o bem comum.

E, no Brasil, será fundamental que esses avanços fortaleçam o Sistema Único de Saúde. 

O SUS continua sendo uma das maiores conquistas civilizatórias da nossa República e o principal instrumento para garantir que a inovação científica e tecnológica não seja privilégio de poucos, mas patrimônio de toda a população.

O futuro da medicina não será determinado apenas pelo que somos capazes de descobrir, mas pelo que seremos capazes de compartilhar.

Foi essa compreensão da ciência como instrumento de transformação social que norteou a minha trajetória.

Senhoras e Senhores,

Permitam-me, neste momento, uma breve reflexão pessoal.

Ao longo de mais de cinco décadas dedicadas à medicina, à pesquisa e à saúde pública — acompanhando a emergência de epidemias, a construção de políticas e a luta por acesso equitativo ao cuidado — aprendi que a ciência, por si só, não basta.

A medicina só se realiza plenamente quando é capaz de alcançar todos — independentemente de sua origem, de gênero, de raça e de geração.

Foi essa convicção que orientou minha trajetória: a de que o conhecimento científico deve estar sempre a serviço da inclusão, da dignidade e da justiça social.

Senhoras e Senhores,

A grandeza de uma Academia não está apenas em seu passado, mas na sua capacidade de se renovar — de acolher novas vozes, novas experiências, novas perspectivas e jovens médicos.

Que esta instituição continue a honrar o legado de Juliano Moreira, a coragem de Nise da Silveira e o pioneirismo de Maria Odília Teixeira, e que siga abrindo caminhos para todos aqueles que ainda hoje lutam por reconhecimento e pertencimento.

Que este aniversário não seja apenas uma celebração da história, mas um compromisso com o futuro.

Um futuro em que a medicina brasileira seja, ao mesmo tempo, excelente, inclusiva e profundamente humana.

Muito obrigado.

Academia de Medicina da Bahia
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